João Gilberto: O Professor de Todos Nós
by Arthur Nestrovski

From Folha de São Paulo,
Reprinted in Notas Musicais--Do Barroco ao Jazz, by Arthur Nestrovski

Ele tinha os cabelos muito brancos e o bigode mais branco ainda. Não fazia nada com pressa e nada sem doçura. Aos oitenta anos de idade, continuava mais curioso e mais audacioso do que seus alunos de vinte, na escola de música da Universidade Federal, em Porto Alegre. Mais do que tudo, quem o conheceu lembra para sempre da voz: macia, tranqüila, cada palavra gentilmente convidada a deixar o conforto de um sussurro. Seu nome era Armando Albuquerque. Foi o professor de João Gilberto.

É difícil saber o quanto João Gilberto terá de fato aprendido nas aulas de composição do professor Armando, que tinha o coração grande o bastante para abarcar Stockhausen e Pixinguinha na mesma sala de aula, mas cujo interesse maior recaía sobre o primeiro. Não será exagero, no entanto, imaginar que a voz, os gestos e o cabelo branco dele ressoam até hoje nesse anticancioneiro brasileiro que é a obra gravada - e, algumas vezes, com sorte, até presenciada ao vivo - de João Gilberto.

Há um momento chave em João, seu disco mais recente, de 1991. É o primeiro instante do disco; quase um "antes" da música. A primeira palavra de "Eu Sambo Mesmo" (Janet de Almeida): "Há quem sambe muito bem..." E João Gilberto faz uma coisa extraordinária. Sem acompanhamento, sem violão nem orquestra, ele canta o "h" de "há". A vogal se segue imediatamente, mas o efeito é inesquecível. Ele cantou o impronunciável e o resto - o resto inteiro do disco - é conseqüência.

Falar de João Gilberto, há pelo menos duas décadas, virou um exercício litúrgico para os críticos, tanto quanto para o público em geral. João é o santo da pureza na música popular brasileira, uma divindade excêntrica e discreta.

Sua imagem como o nosso grande mestre vanguardista, o Anton Webern da MPB, tornou-se corrente desde O Balanço da Bossa de Augusto de Campos, de 1968. Mas a comparação só vale como metáfora, não como analogia. João é muito mais o Chet Baker do que o Webern do Brasil. Boa parte do encanto da pessoa de João Gilberto vem, aliás, da modéstia com que ele não se deixa levar pelas hipérboles. A cada novo disco - não são muitos - o repertório é, previsivelmente, o mesmo: sambas, a maioria clássicos, algumas canções internacionais, um bolero ou balada, Tom Jobim, Dorival Caymmi, Caetano Veloso.

João Gilberto não muda nunca, o que para alguns é uma fraqueza, mas para ele, uma virtude. Tem uma idéia da música que é essencialmente a mesma há quarenta anos e cada novo disco é mais uma forma de refinar e polir essa pedra essencial do cantor. Talvez não seja possível dizer que está cantando cada vez melhor. Mas é cada vez mais ele.

Há duas obsessões que vão se traduzindo nesses milhares de compassos cuidadosamente ensaiados, até o ponto da maior liberdade: a linha e o ar. O que João Gilberto faz como ninguém é reinventar uma canção como uma seqüência nova de linhas, de comprimento e perfil insuspeitado. Preste atenção à quantidade de sílabas ligadas sem nenhuma interrupção. Em "Sampa", por exemplo, ou "águas de Março". Ou em "Eu Sambo Mesmo", onde o final de um verso e o início de outro ficam ligados: "Mexe com a gente / Dá vontade de viver / A minoria diz que não gosta / Mas gosta" - tudo isso numa linha só.

Cada grupo de sílabas forma uma espécie de objeto sonoro, uma frase-objeto, completa em si, que pode ser deslocada mais para frente, ou mais para trás do que o habitual. Essa compreensão estranha da frase musical é muito característica e mais pessoal do que a entoação "cool" do cantor de microfone. E ela só pode ser posta em jogo pelo controle da respiração. João Gilberto é um grande cantor do ar, que ele domina como um verdadeiro instrumento.

Entre suas notas de bravura está um baixo virtual, uma nota grave demais para ser cantada, mas que ele faz a gente imaginar, sussurrando palavras sem tom.

Também é um grande cantor de consoantes. Palavras simples, como "faz força, se domina", ganham outra dimensão poética quando ele ressalta as sibilantes do meio - "-ça / ssse domina" - transformando as palavras na imagem oral do que está escrito. Quando ele canta, não há uma sílaba desperdiçada. Pequenas variações de altura, ou de timbre alteram a consistência das notas; e quanto mais de perto se ouve, mais riqueza se encontra. é como uma vida subaquática, preciosa, que a gente precisa mergulhar para conhecer.

Tanto detalhe e tanta liberdade, toda essa microvida das canções está ancorada no ascetismo dos acordes de quatro notas do violão. Proibido arpejos! O violão segue sempre, impassível, com seu coral de quatro vozes, a mão inteira pontuando a música, com um pulso que a gente reconhece tanto quanto a voz. As harmonias da bossa-nova são sempre iguais; mas algumas são mais iguais do que as outras e nenhuma é tão João Gilberto quanto as do próprio João Gilberto. Parte do segredo é o encadeamento dos acordes, que é sempre linear e lógico. A outra parte é o que se chama "ouvido", ou "alma", aquilo que faz um artista escolher esses acordes com a segurança incontrovertível de um sonâmbulo.

Tudo isso posto, ainda pode ser frustrante, para alguns ouvintes, reencontrar João Gilberto, disco após disco e raro show após raro show, banhado na doce melancolia desse repertório, que os arranjos de estúdio só tendem a reforçar. No Brasil, onde a música popular é alta cultura, não é de bom tom criticar a superficialidade e o kitsch mesmo da fatia mais nobre do repertório. Nem João Gilberto está livre de cortejar esse romance sentimental da canção. Embora quase sempre consiga fazer da falência uma conquista, transformando o que é barato na expressão direta do sentimento, e não só da sentimentalidade. João Gilberto é o cantor mais livre de cinismo que se pode imaginar.

O verdadeiro rito litúrgico da nossa música acontece, então, salvo segunda ordem, hoje à noite. é estranho pensar que um país de expressão tão exuberante - mais que um país: a Bahia - tenha produzido o mais comedido mestre da introspecção. Que ouça quem tiver ouvidos para ouvir: "A minoria diz que não gosta / Mas gosta / E sofre muito / Quando vê alguém sambar..." Quem já o viu, lembra para sempre do banquinho, do violão e da voz: macia, tranqüila, cada palavra gentilmente convidada a deixar o conforto de um sussurro, e se transformar na felicidade da canção. Seu nome é João Gilberto e ele é o professor de todos nós.